Vamos estufar a boca do cadáver com nitrato de prata

— Mas não te incomoda? Não te incomoda nem um pouquinho?

Estavam deitados lado a lado. Evitavam abraçar-se depois da cópula. Satisfaziam-se e aproveitavam para abastecer algumas baterias, mas qualquer contato mais prolongado era visto como Insurreição Proletária. Eram de um branco quase despigmentado. Levemente verdes. Sensibilidades e capacidades desenvolvidas a serviço da Mãe Sol.

— Não há como saber. Os registros são alterados a todo o momento. Nada permanece o mesmo. É a única constante da organicidade. Estabilidade é morte. Pra termos certeza sobre esses rumores, teríamos que ter visto com nossos próprios olhos. Mas não pertencemos a esse passado. E não restou mais ninguém da Era Pré-Fotossintechture.

— Tem a bruxa.

— A bruxa é uma louca.

Uma sirene apitou por quinze torturantes segundos.

— Hora do nosso turno na Fotólise de Água.

Madalena segurou a taça de soro como quem equilibra um cigarro entre os dedos e terminou de beber em rápidos goles. Água, sal, açúcar e saliva.

— Imagine você, uma criatura semiracional, um artrópode remanescente de alguma devastação passada, arrastando-se pelo Permiano. Vendo tudo em preto e branco. Ou em mapas de reflexos de ondas sonoras. Ou mal enxergando o ambiente ao redor e apenas interagindo através de alguns apêndices corporais quimiossensíveis. Prolongamentos mal desenvolvidos, couraças frágeis de quitina, ventres segmentados, guilhotinas bucais e amarelo cádmio venenoso. Você sente o solo friccionando seu tecido mole. E aquilo é tudo o que você possui. Fricção, comunicação química, falatório celular, excreção. Então um pelicossauro que tá se masturbando no buraco de uma árvore se empolga um pouco demais e pisa na sua cabeça enquando você rasteja por perto, esmagando seu exoesqueleto. Agora sua linfa e a massa gosmenta que preenchia os ocos do seu corpo estão espalhados pela terra. E depois absorvidos, enterrados, consumidos, regurgitados, quebrados a nível molecular. Você entranha cada vez mais fundo. Escorre pelas camadas geológicas. E passa por milhões de anos de processos e pressões. Toda uma era de transmutações para ser despejado como óleo. Esguichado, dominado, matematizado e vendido. E agora você é o responsável por queimar a gordura de algum infeliz num acidente de carro. Porque isso, Jesus, é uma vingança razoável. Estamos bem sem petróleo. Todos aqueles cadáveres paleontológicos já se emputeceram o suficiente. Mas sabe o que vai restar quando forem nossos os corpos escorridos e amontoados debaixo da terra?

Jesus a olhava com uma pontada de inquietação na virilha.

— Vai restar só uma coisa, meu querido. Alívio.

 

Publicado originalmente no Quotidianos em 10/06/2013.