O segredo primordial do fruto proibido

Eu vi a face de Ialorixá Monalisa Diniz. E era a metade descaroçada de um abacate azul. O verdadeiro fruto que deu origem aos gemidos que ouvimos entreparedes quando os vizinhos são pessoas saudáveis e felizes. O caroço repousava abraçado pelas mucosas da minha bochecha. Eu deveria esperar derreter ali dentro, amolecendo camada por camada. Mas arranquei-o da minha boca quando senti pequeninos relevos ardentes erguendo-se como miniaturas de cadeias montanhosas. Manchavam escrituras indecifráveis a olho nu. Eu não conseguiria ler sem a ajuda de aparatos especiais.

Busquei uma lupa grossa e pesada no bolso. Saíram umas oito, andando apressadas com perninhas lustrosas e portando lentes de diferentes tamanhos e formatos. Fui alinhando e experimentando distâncias. Mas a superfície verbal do caroço permanecia nebulosa. Suspirei desapontado e recostei no meio das pernas de Mamolial, o demônio que assistia TV na minha sala e que havia me trazido o fruto primordial depois que eu o invoquei enquanto batia uma punheta. Sentado de pernas cruzadas no tapete felpudo arrancado das costas de um tigre albino, fiquei rodando aquele caroço nos dedos, buscando soluções. Senti um cutucão no ombro e vi que Mamolial me passava uma latinha aberta de brigadeiro fiesta. A colher de chá afundada no doce gelado era da cor dos lábios de Cleópatra. Quando toquei no talher, o metal chiou e se retorceu, escamando-se numa serpente que fugiu pelas infiltrações do teto. O doce agora brilhava com flocos dourados.

Peguei o caroço e afundei no brigadeiro. Os flocos dourados recobriram os escritos letra por letra, até transformarem aquela bola de tênis carnuda num ferrero rocher inchado. O brigadeiro parecia ter sido absorvido por completo, pois o interior da latinha brilhava limpo e impecável. Fui buscar o caroço com os dedos e ele saltou para o tapede, onde começou a desfolhar e abrir, pétala por pétala, até atingir a forma de uma metade aberta de abacate e esculpir as fuças de Ialorixá Monalisa Diniz. Sua boca bigoduda de longos fios de chocolate começou a falar e falar e falar. Mamolial resmungou qualquer coisa, levantou da poltrona segurando a bermuda que caía pela bunda gorda e grunhiu um “vou mijar e já volto”.

Eu fiquei ali tentando estabelecer uma conversa com Ialorixá Monalisa Diniz, mas a comunicação era impossível no meio daquele emaranhado de linguagens que não se codificavam. Diante do meu fracasso, algumas entidades piedosas materializaram-se ao meu redor, oferecendo pequenos totens para crackear aquelas linhas perdidas de conversa. Entre elas, Bette Davis, Marylin Monroe, Simone de Beauvoir e uma Cleópatra renascida da colher de chá.

Deus, quanto trabalho! E todo esse esforço apenas para curar uma frustraçãozinha, uma relação mal resolvida ainda fresca. Quando Mamolial apareceu pela primeira vez na minha frente, de corpo peludo nu e com o pau vestindo uma toquinha verde de lã, ouvi que através do segredo do fruto probido eu teria a revelação sobre o que deu errado no meu namoro fracassado e, quem sabe, poderia ter de volta o que era meu.

Cleópatra e Bette Davis foram me passando seus fios de cabelo aos poucos. Consegui amarrar os fiapos que se agitavam na superfície cilial da fruta-rosto, fazendo acalmar e sumir as feições da Ialorixá. No vazio que restou, vi uma silhueta vibrar no ritmo de um proibidão que tocava no morro aqui perto. O som foi ficando cada vez mais alto, e as porradas sonoras já sacolejavam o apartamento. A silhueta deu lugar a traços nítidos e vi Deisy Tigrona cantando em cima de um palco de madeira num vilarejo do Sri-Lanka.

Agachei-me aos poucos e aproximei o ouvido do abacate azul, roçando a orelha nos relevos do rosto de Deisy Tigrona, e só então consegui ouvir o que ela cantava. O segredo do fruto proibido.

Lá do banheiro, Mamolial parecia compenetrado na tarefa de abrir uma série de glory holes nas paredes para aumentar a interação comunitária do prédio.

“E então?” ele gritou “O que diz o segredo primordial do fruto proibido?”

“Ela diz que é dela!” eu respondi.

“O quê?”

“A porra da buceta é dela!”

 

Publicado originalmente no Quotidianos em 30/04/2013.