O lótus na cicatriz do deserto

Rags,

Faz pouco tempo que saí de minha temporada de férias em Mictlan. Bebi chás indescritíveis fervidos com ossadas moídas e comecei uma agradável partida de xadrez com Mictlantecuhtli, que ainda não terminamos. E talvez nunca terminemos. Nas duas últimas semanas, tenho visitado alguns amigos biólogos no Marrocos. E tive acesso ao acervo de um laboratório de engenharia genética que está pesquisando alguns espécimes criptohackeados. Sabe aquela notícia que vazou da Pyura chilensis, uma criatura marinha que mais parece uma pedra com um tomate mutante no lugar das entranhas? Coisa fina aqui desse laboratório. Enfim, eles falam também de uma tal de Nana Za-Ghebe, uma larva centenária de sereia que nasceu e cresceu presa num oásis. Sozinha. Incomunicável. Belíssima. Séssil num substrato de areia quente, com prolongamentos de lótus em camadas desniveladas no lugar da cauda. O que resta do oásis é hoje uma cicatriz. Uma fenda incurável no meio das dunas. Dizem que o corpo dessa sereia do deserto secreta uma neurotoxina que pode ser adestrada em doses controladas. Uma susbtância tão poderosa que seria capaz de reverter os ciclos solares.

Era o que eu precisava, Rags. Era exatamente o que eu precisava. Para lavar esse gosto de gesso que fica na língua da gente depois que enxergamos a dormência de todas as coisas. Nana Za-Ghebe, o lótus na borda da ferida. Ela podia me apagar. Daqui, da inércia da minha existência. Porém, quando trilhei o caminho proibido, agachei-me perto de seu corpo nu e toquei suas mãos desfolhadas em pétalas, fui agarrado e jogado para o escuro da fenda. Caí pelos oitenta e quatro níveis da cicatriz até um lago de metal, que revolvia como doce de leite numa panela em fogo alto. Afundei. Um choque elétrico partiu minha espinha. Mais de cinco mil graus centígrados. E parecia que me descarnavam com um cutelo de gelo.

O campo magnético da Terra desenhou as ramificações do meu sistema nervoso até os anéis de Saturno e então de volta para dentro da minha carne. Era a morte se fazendo em tanta dor que era como se fosse prazer. E vida. E sexo.

Ouvi Nana Za-Ghebe chamar meu nome num sussurro aveludado. Pelos deuses, acho que sou o único que ouviu a voz dessa criatura. Suas pétalas apertavam meus pulsos. Eu gritava de olhos fechados, ajoelhado na areia do deserto. Intacto. Urgente. Quando tomei consciência de mim, eu já corria para longe dali a passos transdimensionais.

Rags, estou voltando para seus lábios com uma sede incomensurável.

Espere por mim.

KM.

 

Publicado originalmente no Quotidianos em 08/07/2013.