Mickey Bubalu, o sapo voador

João Cabeça-de- Alface gostava de organizar chás na beira de um riacho. O menino engomava-se todo e arrumava a mesinha e as cadeiras caiadas de branco na margem lodosa do rio. Sentava-se com as pernas cruzadas e distribuía as xícaras de porcelana para ele e para o amigo que conhecera ali mesmo no riacho: Mickey Bubalu, o sapo voador.

Todos os dias o sapo planava silencioso pelo mato à procura de flores, que trazia na boca para enfeitar o arranjo da mesinha.

Numa dessas tardes arroxeadas que se espreguiçavam sobre os ombros das árvores, João Cabeça-de-Alface teve seu chá interrompido. Big Benny, o menino da rua de cima, veio trilhando o caminho com um longo galho sujo de terra, e destruiu o cenário montado por João Cabeça-de-Alface. Cacos de porcelana, saquinhos de mate, potinhos de chocolate, folhinhas de menta e lascas de madeira esparramaram-se pela terra molhada. Mickey Bubalu testemunhou o ataque escondido sob o toldo de uma vitória-régia. E só saiu depois que Big Benny foi embora rindo como uma hiena.

João Cabeça-de- Alface recolhia os caquinhos, ajoelhado, chorando tanto que o sapo voador achou que seu amigo fosse secar inteirinho até virar uma casca de jacarandá.

Mickey Bubalu esperou a noite cair e levantou voo.

Mickey Bubalu, o sapo voador, seguiu os rastros de Big Benny até sua casa, entrou pela chaminé e surpreendeu a família na hora do jantar. Mickey Bubalu não se preocupou em dizer olá-boa- noite-como- vai-será- que-vai- chover-e- essas-eleições- que-não- acabam-nunca. Mickey Bubalu se limitou a expandir a mandíbula que se projetou gigante para fora do corpo oleoso do animal, excretando uma fileira de dentes de irídio.

Mickey Bubalu arrancou a cabeça do papai de Big Benny e mastigou o rosto da mamãe de Big Benny. O pequeno garoto tentou correr, mas Mickey Bubalu arrancou seus pés e quebrou seus joelhos.

Mickey Bubalu não limpou o carpete ao sair.

Ninguém fode com os amigos de Mickey Bubalu.

 

Publicado originalmente no Quotidianos em 22/07/2013.