Derrame

Quando eu era criança, achava que derrame era isso mesmo que a palavra diz. Um derramamento de algum licor vital que, antes recluso num bulbo translúcido de pequeninas veias rosadas, estourava e escorria pelos buracos da cabeça. Eu não entendia toda aquela comoção quando alguém tinha um derrame. Se era um vazamento saindo pelo canto dos olhos e manchando a cartilagem do nariz, era só passar um paninho, certo? Era só eu andar com meu elefantinho de pedra-sabão no bolso e, qualquer coisa, sacar a pequena escultura e esfregar no rosto, afinal, era pedra-sabão.

E quem daria um nome desses para uma pedra que não fosse realmente capaz de ensaboar?

Demorou algum tempo até as pessoas começarem a me dizer que não era bem assim. Acho que no fundo elas mesmas queriam que fosse e – passar a mão nos meus cabelos desalinhados com um sorriso e uma leve sacudida de cabeça quando eu falava que a pedra-pome devia ter uma árvore onde frutificava – era o máximo que se permitiam. Só que eu continuo achando que o universo tem mesmo esse funcionamento simples e direto, sabe, sem camadas infindas de cebola e cascas quebradiças de serpente, daquelas que a gente puxa e se partem em farelo entre os dedos. Aliás, farelo só na praia. Farelo de rocha. E um arco de biscoito cream cracker molhado beirando a água salgada. E se é salgada porque tem sal, onde foi parar o açúcar da água doce? Vai ver trocaram por adoçante. Não sei como anda o nível de obesidade da fauna marinha, mas não há quem me convença que a fúria dos tucunarés não é causada pela falta de um torrão de açúcar. E falando em peixe, sabia que eles não existem? Pela sistemática filogenética, saca?

Peixes não existem.

Mas nós já fomos peixes.

Aquele papo de quando as galinhas tinham dentes. Aliás, essa é uma boa descrição de como eu me senti quando foi a minha vez de ter um derrame. Pensei que tinha um bico comprido de tucano. Mas um bico cheio de dentes que não paravam de nascer. Era tudo que eu sentia. Dentículos tortos se sobrepondo e se afundando. Era tudo dormente e embaçado e surdo. Acho que eu não estava realmente me mexendo. Foi quando senti o elefantinho sair do meu bolso e subir pela camisa até meus ombros. A tromba de pedra-sabão enrolou meu pescoço e soltou uma rajada de água com detergente no meu rosto.

Lavando o derramamento, sabe?

Passei a respirar em bolhas de sabão. E foi tudo ficando claro. O bico sumiu e deixou um rastro de flúor. E o derrame passou. Não sobrou nem um riozinho de basalto pela topografia vulcânica da minha epiderme para contar história. Fiquei ali cheirando a pinho. E é por isso que ando sempre com meu elefantinho de pedra-sabão.

Nunca se sabe quando a gente vai ter um derrame.

 

Publicado originalmente no Quotidianos em 01/04/2013.