Casas que pingam da lua

Eu estava sentado na grama alimentando meu coelho de estimação quando a casa despencou das nuvens e aterrisou de quina do outro lado da calçada. O vértice de barro vermelho do telhado afundou no cimento fresco e ali ficou, equilibrando a casa de cabeça para baixo. Era uma visão daquelas de desenho animado. Os traços geométricos todos meio fora do lugar, como num glitch em cores primárias na tela rachada de um computador. Tábuas desproporcionais de branco amarelado deslizando pelas paredes e uma portinhola verde-musgo entreaberta.

Vi uma criaturinha sair dali. Sair não, despencar. Da entrada, que escorria pelo teto-base da casa virada, até o cimento do vizinho. Afundou e veio caminhando com dificuldade na minha direção por causa daquele mangue de areia movediça inesperado.

Era um coelho igual ao meu, que já se agitava para longe dos meus afagos. Em pulinhos graciosos, ia ao encontro do parceiro caído da casa que pingou dos céus. Até que se deteve no meio-fio, virou-se e sacudiu as orelhas num sinal de adeus.

— Mas eu tenho cenouras. – falei.

— Na lua tem bolinhos de arroz. – ele respondeu.

E vendo a tristeza se acumulando em sulcos gordos sob meus olhos, sussurrou que eu poderia ir junto, se quisesse. Seria a melhor desculpa do universo para faltar ao trabalho no dia seguinte. Indaguei em que eu poderia ser útil e ouvi que eu poderia pilotar a casa de volta às estrelas.

— Eu mal sei qual botão apertar na máquina de lavar. Como vou pilotar uma casa inteira? Não existem outros coelhos lá dentro que possam fazer isso?

— Sim. Um porrão deles. Mas olha aí o resultado. – respondeu o bicho terminando de mastigar a última folha de alface e limpando seus finos bigodes com as patas.

— Coelhos são péssimos motoristas.

 

Publicado originalmente no Quotidianos em 13/05/2013 .