Aquela noite tinha cheiro de fósforo branco

Amanherelecia e crepitava. Eu estava sentado na beirada de um terraço, comendo brigadeiro em lata e observando uma baleia azul rasgando os céus. As camadas de gordura do animal escorriam para fora e se autorganizavam em origamis.

“Ela tá caçando Vênus.”

Sua voz era rouca e seu cílio esquerdo prolongava-se numa pluma de pavão.

“Pra fazer o último ciclo de gestação e dar à luz a Apophilith. Saca? A serpente primordial que vai sugar nossa consciência e mergulhar o mundo inteiro num eterno sonho lúcido.”

Eu sabia. Tava no Livro do Infinito Negativo. Apophilith colossal verde-turquesa, abóbora-cristal e rosa da Mangueira. Blá-blá- blá no seio siliconado da terra e no períneo do subcosmos. Apophilith inquieta se mexe e um terremoto sacode um arquipélago. Apophilith chora e uma tempestade assola os oceanos. Apophilith espirra e os vulcões ressoam e trovejam com magma e cinzas. Pirotecnia demais para o meu gosto.

Você riu sua risada ensaiada de Missy Pocahontas. Foi montado assim que eu te vi pela primeira vez. Lugarzinho murado em condomínio fechado onde todos eram moles demais, brancos demais e magros demais. Menos a gente. Olhares oblíquos de derrame. Finas películas grudentas de batom de framboesa estampadas no meu saco.

Foi uma daquelas noites acidentais puxadas para o ultravioleta do espectro, com drinks salgados e uma bicicleta de neon pendurada na parede. Eu tô ali respirando mais pó do que uma marmoraria e meus dentes brilham expansivos no escuro. Quando na verdade eu tô há três dias sem tomar banho, com o cabelo ao mesmo tempo seco e ensebado como um chumaço de palha mergulhado numa panela de óleo velho de batata-frita. Minha pele escura é granulosa, áspera, úmida. E tem alguém enfiando a mão por dentro da minha calça e lambendo minha orelha. Mas eu não vejo nada, nem ouço nada, nem sinto nada. Eu fico ali, escorado na parede, anestesiado e vulnerável.

Aquela noite tinha cheiro de fósforo branco.

Eu portava uma cimitarra presa na calça por uma tira gasta de couro. A lâmina havia sido lavada na sua saliva. Estávamos convencidos que a arma eliminaria Apophilith. Porque esse era o tipo de plano que costumávamos formular depois de trepar chapados num terraço desconhecido. E eu distinguia os contornos da serpente-embrião na superfície escaldante de Vênus, seguindo os caminhos da sua língua nas minhas costas. Eu deveria atacar antes que a baleia estacionasse na rua em frente.

Mas começou a chover.

As nuvens de papel queimado da manhã desintegraram-se em amontoados desfiados.

Algodão vergé. Aguada de ozônio. E seus braços enlaçando minha cintura.

Respirei aliviado.

Finalmente começou a chover.

 

Publicado originalmente no Quotidianos em 24/06/2013.